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Disclaimer: "The
Pretender" and his characters are all property of NBC, TNT and MTM. I won't
get any profit out of this, so please don't sue, ok? Thanks.
Observação:
Essa aventura é a segunda e última parte do episódio "confiar ou não
confiar, eis a questão".
Sinopse:
Usando a confiança que Jarod tinha por seu Tutor, o Centro captura o Pretender
fugitivo. Jarod não é mais o mesmo. Agora, Sydney se vê num terrível
dilema.
Confiar
ou Não Confiar, Eis A Questão
parte 2
by Srta.
X (Ruth dos Anjos)
Teaser
Meses
antes, Sydney conversava com Jarod pelo telefone:
—
Roubei trinta anos de sua vida, Jarod. Será que um dia, você irá me perdoar?
—
Isso não é verdade. Você apenas estava fazendo o seu trabalho.
—
Compactuei com eles. Já é o bastante para mim.
—
Você não é um monstro, Sydney.
Sydney
ficou calado por alguns segundos e desligou. Logo em seguida, abriu um arquivo
confidencial em seu computador: Projeto Pretender
Na
verdade, o arquivo era uma espécie de relatório periódico. Sydney dedilhou
sobre o teclado como se estivesse à procura de algo importante, até que
finalmente encontrou.
Jarod
Russel. A avaliação preliminar demonstra capacidade mental altamente
desenvolvida. Possui os requisitos necessários para o projeto Pretender. Jarod
atende perfeitamente as intenções do Centro. Deve ser direcionado ao
treinamento, mas não aconselho ao isolamento constante por ainda se tratar de
uma criança.
Assinado:
Dr. Sydney Green
Sydney
fechou os olhos decepcionado consigo mesmo. Fechou o programa do computador e se
dispôs a pensar. Ele lembrou-se da noite em que o garotinho de olhos assustados
ficou separado de sua mãe pela primeira vez...
—
Ele é apenas uma criança! — gritou Jacob. O irmão gêmeo de Sydney parecia
muito zangado com o Dr. Willian Raines.
—
Calma, Jacob. — disse Sydney, tentando amenizar sua insatisfação. Os três
estavam do lado de fora da pequena sala com paredes de vidro. Não dava para o
garotinho perceber que estava sendo observado.
—
Ele não é apenas uma criança. E você sabe disso. — replicou Raines.
—
Jacob está certo, Willian. Em meu relatório, constatei apenas o grande
potencial futuro. Não é aconselhável separá-lo da família. — disse
Sydney.
—
Não é você quem decide isso. No entanto, para certificar de que vocês não
mais interfiram em meu trabalho, falarei com algumas pessoas e você será o
Tutor provisório do garoto. — manifestou Raines a Sydney.
O
Dr. Green entrou na sala e encontrou um menino com quatro anos de idade
cabisbaixo. Com a cabeça abaixada sobre a mesa, escondia as lágrimas que
insistiam em cair sobre o seu rosto.
Sydney
aproximou-se e se inclinou em sua direção com o intuito de não parecer maior
do que ele e amedrontá-lo.
—
O que você está fazendo aqui, rapazinho? — perguntou.
Sem
respostas. O menino não parecia disposto a conversar. Sydney sabia que ele
estava assustado e com medo, mas tinha que conquistar a sua confiança.
—
Está sozinho? — insistiu, mansamente.
Dessa
vez, a criança balançou a cabeça em afirmação.
—
Meu nome é Sydney. E o seu?
—
Jarod...
—
Está com fome, Jarod?
—
Ahan.
Sydney
retirou do bolso de seu paletó uma balinha de fruta e deixou sobre a mesa.
—
Irei ver se consigo leite com biscoitos. — comentou ao sair.
Jarod
levantou a cabeça e percebeu estar sozinho novamente. Enxugou o rosto e apanhou
a balinha.
Sydney
o observava do lado de fora. E não parava de repetir para si mesmo...
—
É só uma criança... apenas uma criança....
Há
indivíduos extraordinários entre nós.
Gênios
com a capacidade de se transformar em qualquer pessoa.
Em
1963, uma companhia chamada o Centro, localizou um desses.
Um
jovem menino chamado Jarod, que explorou sua genialidade para uma pesquisa não
oficial.
Então
um dia, seu Pretender fugiu...
the
pretender
Episódio
de hoje:
Confiar
ou não confiar, eis a questão - parte final
Delaware,
Shopping Center
Sem
amigos, sem poder confiar em ninguém, sem família. Jarod havia passado a maior
parte de toda a sua vida enclausurado no Centro, participando de simulações e
pesquisas nada agradáveis. E agora, a possibilidade de voltar para lá o
deixava extremamente apreensivo.
Jarod
encontrava-se entre a cruz e a espada. Tentaria fugir e possivelmente levar um
tiro e ser capturado? Ou simplesmente se entregaria e seria igualmente
capturado? Não eram boas alternativas...
Ele
procurou mais uma vez o olhar amigo de Sydney, mas a única coisa que conseguiu
foi o desprezo. Sydney olhava para frente, para o vazio, como se não fosse
capaz de fitá-lo. Esperava apenas o momento em que os agentes do centro o
apanhassem.
Sam
e Willy aproximaram-se com armas em punho em direção a Jarod. E mais três
seguranças do shopping mantinham-se igualmente firmes.
—
Por favor, Willy... Não.
— murmurou Jarod, aflito. Percebendo sua abordagem.
Jarod
conhecia Willy muito bem. Era o agente predileto de Raines. Sempre fazia o
trabalho sujo.
Willy
aproximou-se. Seu semblante era desprovido de qualquer tipo de sentimento.
A
cena chamou a atenção dos clientes do shopping. Jarod sentia-se um criminoso
de alta periculosidade. Mas, na verdade, ele era o único inocente naquela situação.
Rapidamente,
Jarod foi segurado pelos dois seguranças que pressionavam seus braços de uma
maneira tal que o impossibilitava de reagir. E com a coronha de uma pistola, num
ato desonroso, Willy acertou sua testa.
O
ódio velado na face de Sydney não se conteve.
—
Pare, Willy! — disse ele, impassível.
Jarod
sentiu o sangue escorrer lentamente sobre sua fronte. E devido a pancada,
sentiu-se um tanto desorientado.
Ainda
inconformado, Willy bateu-lhe mais uma vez no rosto.
—
Seja bem vindo, Jarod. — disse ele.
O
gosto do sangue escorrendo da gengiva, entre seus dentes, fez Jarod relembrar
toda a angústia nos anos passados no Centro.
—
Já basta! Levem-no! — disse Raines.
Enquanto
estava sendo arrastado pelos agentes do centro, Jarod debatia-se na tentativa de
escapar.
—
Sydney! — gritava ele, mesmo sem forças. — Não! O centro não! Não!—
continuou.
Sua
cabeça doía devido a pancada, sua respiração estava ofegante, seu coração
acelerado batia tão forte que parecia prestes a sair pela garganta.
Jarod
estava com medo, muito medo.
—
Não liguem. Ele é louco. — manifestou Miss Parker, aos curiosos que
insistiam em observar a cena.
Sydney
acompanhava tudo decepcionado consigo mesmo. A sensação que tinha era de total
arrependimento. A angústia e a raiva estampada nos olhos de Jarod eram como
punhaladas em seu coração.
No
estacionamento, Jarod havia se acalmado. Afinal de contas, não adiantava lutar
contra o inevitável. Ele tinha sido apanhando. Confuso e nitidamente
apreensivo, ele foi empurrado para dentro de um dos luxuosos carros negros. Ele
bem que tentou rapidamente verificar se a porta do outro lado estava aberta, mas
a única coisa que conseguiu foi apenas um soco no estômago. E mesmo aborrecido
com a única pessoa em que podia confiar, Jarod ainda procurou por Sydney. No
entanto, de forma ágil e meticulosa, o carro saiu em disparada.
Apesar
disso, Jarod conseguiu ver Sydney entrando no outro carro com a Miss Parker. Ele
ficou imaginando quem mais além de Willy e outro agente estaria com ele. A
conclusão não foi muito boa. O vidro que separava a parte do motorista com a
dos passageiros desceu lentamente. Jarod não conhecia o homem que estava
dirigindo o carro, mas o outro no banco ao lado do motorista, ele conhecia muito
bem. Jarod notou o ar de satisfação nos olhos fundos e cruéis de Raines.
—
Se você quer algo bem feito, faça você mesmo. — comentou Raines, com sua
voz arquejante.
Inconformado,
Jarod achou melhor não responder. Calado, apenas se dispôs a observar a rua
atentamente. As pessoas andando livremente de um lado para o outro, umas indo
trabalhar, outras voltando do trabalho para suas famílias. Aquilo tudo era
mesmo maravilhoso. Liberdade. Elas não desconfiavam de quanto isso é
essencial...
Willy
apertou um botão ao seu lado e o vidro ergueu-se. Ao lado de Jarod, ele estava
pronto para qualquer imprevisto. E na sua frente, um outro agente apontava uma
pistola em direção a Jarod.
E
no outro carro que vinha logo atrás, um Sydney circunspecto e muito calado também
admirava as pessoas na rua.
—
Ele apenas está voltando para casa, Sydney. — manifestou Miss Parker,
percebendo o semblante rígido.
—
Igual a você, Miss Parker. — disse o doutor, com um tom de voz sério, porém,
sarcástico ao fitá-la.
Miss
Parker desviou o olhar. Ela não sentia-se muito a vontade quando o assunto era
ela e o Centro. Aquele lugar sempre lhe trouxera lembranças desagradáveis. A
morte de sua mãe ainda permanecia viva em sua mente e alma. Mas, ela tinha que
fazer o seu trabalho. Tinha que continuar sendo filha de seu pai.
O
caminho de volta ao Centro era quase tão assustador quanto a permanência nele.
Jarod sentia-se como um condenado indo ao enforcamento.
—
Estamos com ele, Sr. Parker. — disse Raines.
—
Tome cuidado. Não queremos nenhuma tentativa de fuga. — comentou o Sr.
Parker, através do celular.
—
É claro. — respondeu, desligando.
Miss
Parker encarou Sydney novamente:
—
Você sabe que o Jarod pertence ao Centro. — disse ela.
—
Ele não é um objeto de pesquisa e nem tampouco um rato de laboratório. É um
ser humano.
Jarod
olhou mais uma vez para a pistola apontada para ele. Irrequieto, mesmo ferido,
Jarod parecia tramar algo...
—
Devo presumir que esteja carregada. — disse ele.
—
Você corre o risco. — respondeu o agente do centro.
—
Cale-se. — mandou Willy. — Não fale com ele. — completou.
—
Do que tem medo, Willy? — perguntou Jarod.
—
Pergunta engraçada vindo de você, Jarod. — disse Willy.
Jarod
cerrou os lábios, nervoso.
—
Quando olho para você me lembro de um garotinho perdido, sem pai e sem mãe.
— completou Willy. — Um gênio que sabe de tudo, mas não sabe sequer quem
é.
—
Você é cruel, Willy. — expressou Jarod, melancólico.
—
Cada um faz o que pode. — respondeu.
O
outro agente permanecia firme, no entanto, por alguns segundos, a arma em punho
parecia algum tipo de convite. A conversa o havia deixado distraído. Jarod
passou a mão esquerda na barriga. Willy pensou que o rapaz estivesse armando
uma das suas, mas aquilo demonstrava que o soco ainda doía.
No
entanto, ágil como um gato, aproveitando o momento, rapidamente, Jarod tomou a
arma de suas mãos e apontou para Willy.
—
Sua arma, Willy. — pediu Jarod.
Sem
nenhum tipo de relutância, Willy obedeceu e entregou-lhe a arma. Jarod
estranhou o seu comportamento.
Aquilo
era muito estranho. Normalmente, eles não se importariam em morrer para não
deixá-lo fugir, entretanto, os agentes do Centro não pareciam muito nervosos.
Talvez soubessem que Jarod não seria capaz de matá-los ali, a sangue frio...
Ou então...
—
Pare o carro! — gritou Jarod.
—
Sr. Raines, estamos com um probleminha. — disse Willy, abaixando o vidro
novamente.
—
Que tipo de problema? — perguntou.
—
Pare o carro! — insistiu Jarod.
Raines
sinalizou. O motorista obedeceu e parou o carro no acostamento.
—
O que vai fazer, Jarod? Matar todos nós? — perguntou Raines, cinicamente.
—
Seria um bom começo. — respondeu.
Raines
alteou as sobrancelhas, esperando por alguma reação.
—
Senhor, o que houve? Devo estacionar também? — perguntou o motorista do outro
carro.
Sydney
olhou rapidamente pela janela e afirmou:
—
Sim.
—
O que diabos está acontecendo? — indagou Miss Parker, embora já soubesse a
resposta... Jarod.
Sydney
não conseguia definir o que aquilo significava. Saindo do carro e indo em direção
ao outro, ele não sabia se ficava contente ou ainda mais preocupado. Talvez
Jarod tivesse achado uma maneira de escapar... Ou talvez não... Talvez algo
muito ruim tivesse acontecido ali dentro.
Miss
Parker o acompanhava e resmungou algo, mas Sydney não prestou muito atenção.
Ele só queria ver o que estava realmente acontecendo.
—
Vá em frente, Jarod. Faça o que você tem que fazer. — disse Raines.
Confuso,
Jarod fitou-lhe tempestivamente. Ele parecia disposto a atirar.
—
Não. — disse ele. — Sempre haveria mais e mais de vocês. Nunca me
deixariam em paz... Por quê?
—
Você pertence ao Centro... — respondeu Raines.
—
Fiz mal a muitas pessoas enquanto estive lá. Eu não vou voltar.
—
Você não tem escolha.
O
vidro fumê impedia que Sydney e Miss Parker vissem alguma coisa. Diante disso,
Miss Parker bateu na janela de Raines para que abrisse. E lentamente, a cortina
de vidro foi caindo...
Miss
Parker aproximou-se e percebeu a gravidade da situação. Sydney tentou
igualmente se aproximar, mas foi impedido por ela.
—
Não Sydney. Você não precisa ver isso. — manifestou Miss Parker, com o
semblante mais preocupado possível.
Sydney
ignorou o comentário. E o que viu lhe deixou extremamente temeroso. Uma
infinidade de emoções transpareceu de forma repentina. Angústia,
arrependimento, culpa, medo. Sydney viu-se com medo de perder Jarod. Sempre o
teve como filho, sempre o amou como filho, mas nunca teve a coragem de dizer. E
agora, a possibilidade de perdê-lo o deixou bastante apreensivo.
—
Há outras escolhas, Jarod. — disse ele, tentando manter-se calmo, embora
fosse impossível na atual circunstância.
De
soslaio, Raines percebeu a apreensão de Sydney.
—
Eu não suporto mais, Sydney. Eu não suporto. — insistiu Jarod, apontando a
arma para si mesmo. — Não sou nenhum herói.
—
Você pode ser tudo o que quiser, Jarod. Menos um covarde. — disse Sydney,
severamente.
Por
um instante, Jarod parecia pensativo. Ele fitou Sydney e percebeu o quanto
estava confuso.
—
A vida é uma dádiva... — comentou, largando a pistola.
—
E enquanto há vida, há esperança, Jarod. — replicou Sydney, aliviado.
Willy
apanhou a arma que Jarod deixou cair e tomou a outra de sua mão, entregando-as
a Raines. E para surpresa de todos, Raines apontou a arma para Sydney puxando o
gatilho...
—
Influência demais, Sydney. — disse Raines, com um sorriso sarcástico, quase
diabólico.
A
arma estava descarregada.
—
Raines... — expressou Miss Parker, com desdém, bastante irritada.
Teste.
Para Raines tudo era questão de testes. Mas, ele não levou em consideração
que Jarod também poderia estar testando-o...
Enquanto
isso, no Centro...
—
Ângelo? — disse Broots, curioso. — O que você está fazendo?
Ângelo
estava em frente ao seu terminal de computador. O rapaz virou-se surpreso com a
chegada repentina, mas quando percebeu quem era, sorriu inocentemente e disse
mais inocente ainda:
—
Ângelo. Eu sou Ângelo...
Broots
sabia que Ângelo não batia muito bem da cabeça. Sempre fora o "rato de
laboratório" de Raines. No entanto, às vezes, ele fazia coisas impossíveis
para qualquer cidadão normal. Embora tivesse habilidades telepáticas específicas,
Ângelo também era muito inteligente e expert em computadores. E de vez em
quando, num curto período de tempo, ele pensava com clareza.
Broots
aproximou-se e observou o monitor atentamente. Cálculos, senhas de segurança,
centenas de informações passavam rapidamente pela tela do computador.
—
O que é isso?
Ângelo
não respondeu. Com a mão na cabeça, demonstrou a confusão que estava em sua
mente e retornou ao teclado. Ele parecia bastante ocupado.
—
É algum trabalho para o Raines, não é? — perguntou Broots.
E
sem desviar o olhar do monitor, Ângelo sorriu misterioso, quase sarcástico.
—
Eu hein...! — disse Broots, saindo logo em seguida.
O
escritório era claro. Paredes claras e a pintura nos quadros também eram
claras. No entanto, o homem sentado de costas, atrás da mesa, era sombrio...
Extremamente
pensativo, mesmo ouvindo o ruído delator que Raines fazia com seu balão de
oxigênio, o Sr. Parker virou-se apenas quando escutou de forma dificultosa, mas
confiante:
—
O filho pródigo retorna à casa... — disse Raines.
—
Oi, papai. — disse Miss Parker, aproximando-se e beijando-lhe a face.
A
primeira visão que o Sr. Parker teve foi a do homem com capuz na cabeça e mãos
algemadas para trás.
Assim
que Raines sinalizou com a cabeça, Willy entendeu e retirou o capuz de Jarod.
Cabisbaixo,
seus olhos só demonstravam tristeza e rancor.
—
O que houve com ele? — perguntou o Sr. Parker, notando o rosto de Jarod sujo
de sangue.
—
Foi necessário, Sr. — respondeu Willy.
De
soslaio, Jarod percebeu Sydney massageando suas têmporas, nitidamente nervoso e
preocupado. Miss Parker demonstrava uma falsa alegria aparente, embora estivesse
feliz, afinal, tinha executado o trabalho que seu pai havia lhe confiado. Willy
parecia uma ave de rapina de olho na caça. E enquanto a Raines? Raines era a
satisfação em pessoa...
No
entanto, quando Jarod fitou o Sr. Parker por alguns segundos, ele não soube
defini-lo com certeza. O Sr. Parker era um homem misterioso, imprevisível.
Jarod não o conhecia muito bem. Na verdade, talvez ninguém o conhecesse... A
única pessoa que talvez o tivesse conhecido de verdade era sua esposa Catherine,
mas ela estava morta.
—
Você nos causou muitos prejuízos, Jarod. — comentou o Sr. Parker.
Jarod
permaneceu calado.
—
Sydney. — disse o Sr. Parker. — Você acha que ele pode ser readaptado?
O
doutor em psiquiatria respirou fundo e disse:
—
Eu não sei. Não tenho certeza. Ele passou muito tempo fora do Centro.
Assimilou novas experiências. Jarod não é mais o mesmo.
—
Raines... — insistiu o Sr. Parker, numa segunda opinião.
—
Se não for do jeito de Sydney, pode ser feito do meu jeito. — respondeu
Raines.
Miss
Parker sentiu um arrepio na espinha. Ela conhecia os meios de trabalho do Sr.
Raines, na verdade, todos conheciam. A moça não ficou muito contente com a idéia.
Imagine o Jarod? E Sydney? Agora, o rapaz parecia mesmo encrencado. Tudo no
Centro havia conseqüências. E Jarod sabia disso...
Algum
tempo depois...
O
lugar era estranhamente arquitetado para proporcionar ansiedade e até mesmo
segurança para quem estivesse dentro. Com apenas uma cama e um pequeno sofá
encostado perto da porta, paredes e tetos imaculadamente brancos e sem janelas,
o ambiente era de total isolamento.
Jarod
acorda sentindo-se um pouco tonto e com frio. Confuso e assustado, não
lembrava-se de como teria ido parar ali. Estava sem camisa, descalço, apenas
com uma calça de pijama. Talvez, depois da reunião com o Sr. Parker, tenha
sido sedado. Ele não tinha certeza. E ainda um pouco sonolento devido a droga
que possivelmente haviam lhe dado, Jarod levantou-se da cama requisitando um
pouco mais de esforço para se equilibrar de pé.
Indo
em direção à porta, a não existência de trinco ou qualquer coisa parecida
do lado de dentro, lhe deixou com uma sensação que já fazia algum tempo que não
sentia...
Jarod
estava de volta ao Centro.
Extremamente
pensativo, virou-se contra a parede numa tentativa de colocar seus pensamentos
em ordem. Ele tinha que arranjar uma maneira de sair dali. Tinha que pensar numa
maneira de fugir novamente. Contudo, literalmente sozinho, pois a única
companhia que tinha era a de si mesmo num grande espelho na parede, por mais que
tentasse raciocinar, a imensidão daquele quarto, quase que vazio, o deixava
cada vez mais confuso e com medo de ter que ficar ali por muito tempo.
Muito
irritado, Jarod achou mais conveniente manter-se o mais calmo possível.
Sentou-se no chão, abraçando os joelhos. E ainda cabisbaixo, disse:
—
Tem alguém aí? Sydney... Eu não quero ficar aqui! Por favor, alguém...
—
Há quanto tempo ele está acordado? — perguntou Sydney, ao homem de terno
requintado e a arma carregada sobre a mesa.
Atrás
do espelho, Jarod não podia vê-los.
—
Há quinze minutos, senhor. — respondeu.
—
E há quanto tempo fala assim?
—
Essas foram as primeiras palavras dele, senhor. Primeiramente, ele observou o
lugar. Acho que analisou todas as possibilidades. — disse o guarda de segurança.
—
Obrigado por suas observações. — replicou Sydney. — Abra a porta.
—
O Sr. Raines ordenou que não abrisse a porta para ninguém.
—
Abra logo essa porta. — retrucou Sydney, nitidamente aborrecido. — Depois eu
me entendo com Raines.
A
contragosto, o outro obedeceu. Apertou um dos botões no painel a sua frente e a
porta se abriu.
—
Como você está, Jarod? — perguntou Sydney, logo após ter sentado no sofá e
esperado um pouco para criar coragem e conversar.
Jarod
hesitou em responder, mas disse num tom de voz decepcionante:
—
Como você acha, Sydney?
—
Eu sei. — expressou o doutor.
Uma
breve pausa se fez presente.
—
Jarod, será que algum dia você vai me perdoar?
—
Eu não sei. Se coloque no meu lugar e descubra.
—
Mágoa, solidão. São sentimentos difíceis para qualquer um suportar.
Jarod
ficou calado.
—
Mas você não é qualquer um. Você é especial, Jarod. — completou Sydney.
—
Eu queria ser como você, Sydney. Uma pessoa normal.
—
Você tem um dom, Jarod.
—
E fiz mal a muitas pessoas enquanto estive aqui.
—
Por isso quando esteve lá fora, ajudou muitas pessoas?
—
Eu não sei. Apenas fiz o que tinha que fazer. — disse Jarod, percebendo a
porta semi-aberta.
—
Eu não faria isso se fosse você. — comentou Sydney, notando o interesse
despertado em relação a porta.
Jarod
olhou discretamente para o espelho e fitou Sydney, entendendo o que ele queria
dizer. Havia realmente alguém atrás do espelho... Talvez filmando tudo,
vigiando cada respiração sua, anotando cada reação.
—
O que vai acontecer comigo, Sydney?
—
Apenas depende de você.
—
Se eu não participar novamente com as simulações e pesquisas... — dizia
Jarod.
—
Não se preocupe. Você participa de um jeito ou de outro. — disse Raines, ao
entrar repentinamente.
Sydney
fez um muxoxo. Ele não gostava nem um pouco de Raines. Ele enfiou a mão no
bolso tentando conter sua raiva e certificando-se de que não tinha esquecido a
arma que sempre andava com ela para qualquer imprevisto.
A
pistola estava lá...
Esperando
a hora certa...
Podia-se
dizer que Sydney era uma bomba-relógio cuja a contagem já havia sido iniciada.
—
Jarod. — disse Raines, com seu tom de voz característico que lhe
proporcionava um ar ainda mais aterrorizador. — Onde estão os DSA's que você
roubou do Centro? — completou.
—
Perdi por aí.
Raines
sorriu com os lábios apertados.
—
Não demore muito a se lembrar onde os perdeu...
—
Miss Parker! — chamou Broots.
—
O que é?
Broots
engoliu a seco. Ele sempre tremia quando estava perto dela. Broots não sabia
explicar porquê. Medo? Intimidação? Então por que sonhava com ela?
Estranho...
Miss
Parker era tão cruel com ele às vezes, que Broots até temia em puxar conversa
com ela.
—
Eu queria fazer uma pergunta a Srta...
—
Então faça, idiota.
—
É verdade que conseguiram capturar o Jarod?
Miss
Parker alteou as sobrancelhas, surpresa.
—
É sim, Broots. Ele está de volta.
—
Puxa...
—
O quê?
—
Como é que a senhorita consegue agüentar isso?
—
Agüentar o que Broots?
O
rapaz hesitou em continuar, mas disse mesmo assim.
—
Nós vimos as simulações. Sabemos o quanto Jarod sofre com isso.
—
E daí?
Broots
ficava cada vez mais tenso.
—
Ele não é uma má pessoa. Não merece isso.
Miss
Parker suspirou.
—
Broots, ponha na sua cabeça. O Jarod não é uma pessoa. Ele é um Simulador.
—
É assim que a senhorita o vê?
Miss
Parker já estava ficando irritada com o interrogatório.
—
Acabou? — perguntou ela.
—
Ainda não... — disse Broots, nitidamente nervoso. — Eu não consigo ser
assim. Acho que sou um fraco.
—
Nisso você tem razão.
—
O Jarod ajudou muitas pessoas, inclusive a senhorita... Como é que pode ser
assim tão, tão... — dizia Broots, hesitante. — ...fria?
Miss
Parker não respondeu. A moça simplesmente virou-se e foi embora, mas
inusitadamente, comentou:
—
Você não é um fraco, Broots. Apenas uma boa pessoa.
Broots
ficou sozinho em seus pensamentos. Ele não conseguia acreditar no que tinha
acabado de ouvir. Seria mais um de seus sonhos??
Já
fazia algum tempo que Jarod estava trancafiado naquele quarto. Todavia, ele não
podia dizer o quanto ao certo. Não sabia sequer se era dia ou se era noite. A
luz branca fluorescente ligada eternamente impedia-lhe de perceber as horas
passando. Ele sabia que aquilo era de propósito...
Queriam
confundi-lo, deixá-lo indefeso novamente.
Jarod
havia adormecido depois que Sydney saiu. Afinal, ele não tinha mais nada a
fazer. Tinha que esperar, esperar pelo próximo passo.
Pelo
menos, por enquanto...
Minutos
depois, inesperadamente, três agentes do Centro, juntamente com o Sr. Raines
entram de forma abrupta no quarto.
Assustado,
Jarod sabia que algo iria acontecer.
Numa
ação rápida e meticulosa, Jarod fora imobilizado enquanto gritava em vão
pedindo para que o soltassem. Segurado com força, completamente indefeso, Jarod
sentiu a picada da agulha aplicada por Raines em seu braço direito.
—
Não... — murmurou Jarod, já sem forças. O tom de sua voz demonstrando dor e
seu coração aos pulos observado através do monitor, por Sydney atrás do
espelho, deixou o doutor apreensivo. Sydney padecia calado, em sofrimento
constante, tentando demonstrar apenas a frieza que seu trabalho lhe permitia.
Seu
braço doía muito, mas eles não pareciam se importar. Embora estivesse com a
sensação de que o mundo ao seu redor dava voltas e que escurecia lentamente,
Jarod percebeu o imenso corredor iluminado pelo qual estava sendo levado.
O
rapaz queria dizer algo, mas tudo fora tão rápido e aterrorizante, que Jarod não
pôde sequer gritar. Sentia-se sufocado pelo medo. E repentinamente, sentiu uma
dor na cabeça que o deixou impossibilitado de abrir os olhos. E como uma luz
que se apaga, tudo escureceu...
Algum
tempo depois, de volta ao mesmo quarto, Jarod encontrava-se sentado na cama.
Seus olhos pareciam duas bolas de vidros, de tão vazio que estavam. Na verdade,
o rapaz parecia estar em algum tipo de transe.
Atordoado
e extremamente quieto, Jarod tentava lembrar o que havia lhe acontecido. Tentava
entender por que sentia-se tão estranho, tão cansado, tão fraco... Mas, era
inútil. Por mais que tentasse forçar a sua memória, ele não conseguia se
lembrar.
Confuso,
muitas imagens viam em sua mente. Lugares, rostos de pessoas que ele não
conhecia, mas que tinha a sensação de conhecê-los. Muitas lembranças, muitos
pensamentos ao mesmo tempo. Aquilo tudo era muito estranho. Suas ações estavam
lentas, não conseguia raciocinar como deveria. Jarod estava nitidamente
perturbado.
E
nesse instante, Sydney entra.
O
doutor não disse nada. Apenas permaneceu observando em silêncio o estado do
rapaz.
Jarod
levou a mão até a cabeça, como se aquilo ajudasse a suportar a dor que
sentia. Tudo estava confuso, embaralhado em sua mente.
—
Não consigo pensar com clareza, Sydney. — murmurou, melancólico.
Sydney
fechou os olhos numa tentativa de conter toda a angústia que estava sentindo.
Ver Jarod daquele jeito, lhe fazia sofrer mais do que imaginava. Sydney sempre o
protegeu das mãos de Raines, mas agora, devido a fuga, Jarod merecia um
castigo. E o castigo do Centro era Raines. O simulador mais valioso da corporação
tinha que ser readaptado ao sistema, e não importava como.
O
doutor encheu o peito de coragem e de braços cruzados, disse:
—
Estão confundindo você, Jarod. Em pouco tempo você não terá mais a certeza
de ter escapado do Centro.
—
Me ajude, Sydney. Eu não quero esquecer.
—
Talvez seja melhor. Você não sofreria tanto. — disse Sydney, olhando
rapidamente para o espelho e lembrando-se de estar sendo vigiado.
—
Tenho medo de esquecer quem sou...
—
Eles podem tentar mudar sua mente, suas ações, mas não conseguirão mudar sua
alma, Jarod. Aconteça o que acontecer, você deve seguir seus instintos.
Uma
breve pausa se fez presente e Jarod disse:
—
Você foi o único pai que conheci, Sydney. Não me deixe machucar ninguém.
Sydney
sorriu com o canto dos lábios. Discretamente, ele sentiu-se bem em saber que
Jarod o tinha como um amigo, como pai, e não, simplesmente, como alguém do
Centro.
Jarod
estava tão triste e tão desprotegido que parecia o mesmo garotinho de anos atrás.
Sydney aproximou-se e com a intenção de confortá-lo, tentou passar a mão em
sua cabeça, num simples gesto de carinho. No entanto, Jarod afastou-se
rapidamente.
O
rapaz sentou-se no chão, onde duas paredes se encontravam e assustado, gritou:
—
Saia, Sydney! Saia!
Sydney
franziu a testa, aborrecido. O doutor sabia que a mudança repentina do humor de
Jarod era por causa das drogas de Raines.
—
Por favor, saia! Vamos!— insistiu Jarod, ficando cada vez mais agressivo. —
Eu não quero machucá-lo!
Sydney
resolveu atender o pedido. Mas, deixá-lo sozinho naquelas condições, era o
que Raines queria. E do lado de fora, quando Sydney olhou pelo monitor, percebeu
Jarod chorando. Sydney estava realmente zangado.
Delaware,
Delegacia de Polícia.
Frustado
em ter que ficar fazendo pesquisa no computador enquanto seu parceiro havia saído
em diligência, o detetive Simon sentia o peso em seus ombros de uma noite mal
dormida. A festa da noite passada havia sido boa demais. Embora fizesse parte da
divisão de homicídios, por ordens do chefe, teria que passar o dia inteiro
ali, fechando e abrindo arquivos.
Em
meio a tantos casos, Simon espreguiçou-se na cadeira giratória e virou-se
contra o computador, com o intuito de observar seus amigos. O ambiente na
delegacia sempre era o mesmo. Pessoas entrando e saindo, pessoas esperando por
informações, e pessoas sendo presas. Simon virou-se novamente em direção ao
monitor. Apertou a tecla disposto a arquivar mais um caso, e, repentinamente,
teve uma surpresa.
—
Bob! — gritou ele, chamando um outro policial que perambulava por perto.
—
O que foi?
—
Esse não é o cara que ajudou você e o Steve na prisão daquela médica? —
perguntou, apontando para a foto no arquivo.
Bob
aproximou-se e franzindo a testa, disse:
—
É... Mas, o que será que houve?
—
Nem mesmo um agente do FBI, hoje em dia, está mais seguro...
A
foto do rapaz com semblante divertido foi reconhecida. Agente especial Jarod
Ness. DESAPARECIDO.
No
entanto, bem diante de seus olhos, o arquivo confidencial do FBI fora
apagando-se lentamente. E em questões de segundos, sumira por completo.
Já
era tarde da noite. Broots andava pelo corredor calmamente quando percebeu algo
que lhe deixou intrigado. O rapaz arregalou os olhos, surpreso e incrédulo,
disse:
—
Jarod?
Broots
avistou Jarod seguindo pelo outro lado do corredor, acompanhado por dois agentes
do Centro. E não parecia que estava bem. Quando Broots o chamou, Jarod escutou.
No entanto, não teve sequer o ânimo de fitá-lo rapidamente, depois do empurrão
que levara.
Broots
franziu a testa, inconformado.
Jarod
não era capaz de fazer mal a ninguém. Não merecia ser tratado daquele jeito.
Então, disposto a tentar ajudá-lo, ou quem sabe, ajudar alguém capaz de ajudá-lo,
Broots foi procurar por Sydney.
Minutos
depois, ele o encontra no escritório.
O
lugar estava parcialmente escuro, apenas iluminado pela luz tênue do abajur.
Sydney estava sozinho. Pensativo, não percebeu Broots.
Com
receio de incomodá-lo, mas ansioso em falar com o doutor, Broots pigarreou a
garganta com o intuito de chamar a atenção.
Sydney
conhecia muito bem as pessoas. Sua profissão lhe possibilitou isso.
—Trabalhando
até tarde? — perguntou.
—
Hoje é dia de hora extra.
Sydney
forçou um sorriso. Tentou ser simpático, embora estivesse nitidamente
aborrecido com alguma coisa.
—
O que foi Broots? — perguntou o doutor, notando a apreensão nos olhos do
outro.
—
Acabei de ver o Jarod no corredor.
—
É, Broots. Ele está de volta.
—
E você Sydney, está bem?
—
Já estive melhor.
Broots
engoliu a seco.
—
Jarod também. — disse ele, hesitante. — Ele parecia...
Sydney
fitou-lhe esperando a continuação da frase.
—
...meio desorientado, Sydney.
—
Não se preocupe, Broots. Jarod é forte. Ele vai agüentar.
—
É. — comentou Broots, tentando transparecer a mesma falsa certeza que Sydney
transparecia com suas palavras.
Uma
breve pausa na conversa demonstrava a necessidade de mudança de assunto...
—
Você viu Ângelo hoje? — perguntou Sydney.
—
Sim. Por quê?
—
Curiosidade. — respondeu Sydney, misterioso, com a mão no queixo.
Minutos,
horas, dias. O tempo no Centro parecia não passar. Eram quase duas da manhã,
mas Jarod sequer desconfiava disso. Tudo parecia meticulosamente armado para
confundi-lo. Os segundos no relógio do corredor não se mexiam. O relógio
estava parado às 09:00h. E na sala na qual agora se encontrava, o relógio na
parede marcavam apenas 01:00h.
Jarod
não sabia se era dia ou noite. Não sabia há quanto tempo já estava no
Centro.
Sentado
na cadeira, com as mãos sobre a mesa, ele tinha certeza de uma coisa. Era a
hora da refeição.
Willy
colocou a bandeja com a comida ao seu alcance, mas Jarod apenas a observou por
alguns instantes. E percebeu os talheres, prato, copo, bandeja, tudo de plástico,
completamente inútil.
—
Vamos Jarod, coma. — disse Willy, vigiando-o.
—
Não estou com fome. — replicou Jarod, empurrando a bandeja para longe.
—
Não seja idiota.
—
Posso ser tudo o que eu quiser. Por que não um idiota? — comentou Jarod, com
certo desdém.
A
sala era protegida por paredes de vidro e à prova de som. Qualquer coisa dita
ali dentro ou do lado de fora, era impossível de ser ouvida.
No
entanto, nada era impossível de ser visto...
E
Jarod percebeu quando Ângelo entrou na sala ao lado e ficou observando, como se
quisesse dizer algo.
Qualquer
tipo de comunicação entre os simuladores sem autorização expressa, era
considerado um agravo as regras da instituição. Ainda mais Jarod e Ângelo. Os
dois juntos era um verdadeiro perigo. Eles poderiam colocar a estrutura do
Centro abaixo com apenas uma de suas idéias mirabolantes.
Apesar
de um tanto maluco, Ângelo conhecia as regras muito bem. Ele sabia que as câmeras
espalhadas pelo Centro gravava tudo meticulosamente.
Willy
dirigiu-se até o interfone na parede e disse:
—
O senhor estava certo.
Jarod
tentou escutar a conversa, mas não deu para entender. Willy só respondia com
frases vazias.
Diante
disso, Jarod passou a prestar atenção em Ângelo. Talvez, ele pudesse ajudá-lo
de alguma maneira. Mas como? Eles não podiam sequer conversar! Só a presença
de Ângelo ali, já era um problema...
Jarod
precisava apenas de tempo. Algum tempo suficiente para lhe dar espaço para
fugir.
Jarod
olhou novamente para Willy e tentou se levantar, mas foi impedido. O agente do
Centro retirou a pistola do coldre e apontou.
—
Dessa vez está carregada. — disse ele.
Decepcionado,
Jarod sentou-se novamente.
—
Ok. — dizia Willy no interfone, possivelmente para Raines.
Percebendo
a tentativa frustada de Jarod em se aproximar, Ângelo encostou o rosto na
parede de vidro. E retirando da boca um pequeno giz de cera, escreveu
rapidamente: ENFERMARIA.
O
rapaz havia procurado o angulo exato que impossibilitasse Willy de ler. E,
apagando assim que mais um homem de terno apareceu na sala, Ângelo sorriu
discretamente ao perceber que Jarod havia lido.
Willy
também percebeu.
Percebeu
que algo muito estranho havia acontecido ali na sua frente e ele não sabia o quê.
Irritado,
o agente do Centro levou Jarod de volta ao quarto. E minutos depois, já estava
inspecionando o vídeo para ver se descobria algo. No entanto, seu esforço
havia sido inútil. Ângelo tomou a precaução de se posicionar em frente da câmera.
Willy
coçou a cabeça, temeroso. Se Ângelo e Jarod estavam armando alguma coisa, o
Sr. Raines não iria ficar nem um pouco contente com isso...
Impaciente,
aborrecido. No quarto, Jarod andava de um lado para o outro. Irrequieto,
sentia-se um animal enjaulado. E aquela palavra na parede não saía de sua cabeça.
Enfermaria...
Jarod
sabia muito bem o que Ângelo queria dizer. Mas ele precisava de muita sorte
para dar certo.
Sorte...
Ultimamente,
Jarod não sentia-se com muita sorte. Porém, ele tinha que tentar! O pior que
podia acontecer é ter que voltar a enfermaria de novo, sem sua livre e expontânea
vontade.
E
por um instante, ele olhou para a porta do banheiro. Seu olhar estava repleto de
imaginação...
O
espelho em cima da pia lhe deu uma idéia.
Ele
respirou fundo tomando coragem, e, rapidamente, golpeou o espelho com o
cotovelo.
Jarod
fez uma careta tentando suportar a dor.
O
espelho havia se quebrado e o sangue escorria pelo seu braço.
Havia
batido com mais força do que deveria, pois tinha que ser realístico. Mas não
precisava tanto... — pensou.
Jarod
sentou-se na cama.
—
Droga! — resmungou o segurança, aflito, vendo tudo pelo monitor.
O
homem com roupas requintadas entrou rapidamente no quarto e examinou a dimensão
do ferimento.
—
O que houve com você? Está maluco? Já pensou que o Sr. Raines pode não
deixar que vá até a enfermaria?
Jarod
não respondeu. Apenas fitou-lhe assustado.
Sydney
verificava as anotações de Raines e ouviu quando o segurança falou:
—
Senhor Raines, temos um problema.
—
Que tipo de problema? — perguntou Raines, ao atender o celular, olhando para
Sydney já desconfiando da resposta.
—
O Jarod se machucou. Precisa ir para a enfermaria, senhor.
—
O que aconteceu? — indagou Sydney, preocupado.
Raines
desligou o celular.
—
Parece que seu protegido sofreu um acidente. — respondeu.
—
Acidente?
—
Não se preocupe. Deve ser uma das brincadeiras de Jarod. — disse Raines,
arquejante. — Vou dar um jeito nisso.
Sydney
se prontificou a acompanhá-lo, mas Raines não permitiu.
Minutos
depois...
Raines
aparece juntamente com Willy.
Jarod
hesitou em deixar Raines examiná-lo, mas ele tinha que fazê-lo se quisesse que
seu plano desse certo.
—
O que você pensa que vai conseguir com isso? — perguntou o doutor, notando a
gravidade.
Jarod
não respondeu. Apenas fitou-lhe com rancor.
—
Leve-o a enfermaria, Willy.
—
Sim, senhor.
Na
enfermaria, Jarod notou as duas câmeras instaladas em pontos estratégicos. E
em menos de três minutos, qualquer situação de risco, cinco agentes do Centro
estavam prontos para agir. E Jarod sabia disso. O que ele precisava era de
apenas tempo.
Enquanto
a enfermeira o examinava, Willy permanecia atento a qualquer reação. Willy não
podia deixar que Jarod tentasse uma das suas.
A
mulher cheirava a cigarro e não parecia nada delicada. Até mesmo Raines fora
mais gentil examinando-o.
Jarod
deu uma boa olhada ao seu redor, em busca de algo que o ajudasse. O bisturi ao
seu lado, na mesa, bem que podia ser útil se Willy não tivesse visto também e
apanhado com um diabólico sorriso nos lábios.
A
enfermeira aplicou-lhe um anti-inflamatório, retirou os cacos de vidro que
ainda permaneciam no braço e enfaixou.
—
Pronto. — disse ela. — Só não faça movimentos bruscos. — completou.
—
Obrigado. — retrucou Jarod, mexendo o braço para verificar até que ponto agüentava.
Jarod
olhou rapidamente para a entrada do ducto de ventilação. Tinha que ser agora.
Ele tinha que tentar algo.
O
ducto de ventilação da enfermaria era o único lugar que não tinha o sistema
de segurança a laser. No entanto, uma vez dentro, o labirinto de túneis o
levaria para ductos protegidos e talvez, até mesmo fechados. Mas, Jarod tinha
que tentar.
Ele
encarou Willy sem qualquer tipo de medo nos olhos. De lábios cerrados, Jarod
franziu as sobrancelhas e parecia disposto a tentar.
Willy
percebeu e procurou a arma em seu coldre, apontando-a rapidamente.
Sem
escolhas, Jarod deve que utilizar a mulher ao seu lado como escudo. Seu braço
estava ao redor do pescoço dela, mas ele não tinha a intenção de machucá-la.
Queria apenas se aproximar da parede atrás de Willy.
O
tempo estava passando. Ele sabia que outros agentes do Centro estavam à
caminho.
—
Pare com isso, Jarod. O que pretende conseguir?— disse Willy, ríspido.
—
Não me obrigue a machucá-la, Willy.
A
enfermeira estava nitidamente nervosa. Na verdade, mais nervosa com Willy do que
com Jarod.
—
Você não é capaz.
Jarod
sentiu-se intimidado. Willy estava certo.
No
entanto, Jarod não precisou se preocupar por muito tempo. Willy atirou à
queima roupa na mulher, sem pensar duas vezes.
Assustado,
Jarod observou a enfermeira cair no chão desacordada.
Ele
abaixou-se e verificou a pulsação. A mulher estava morta...
Jarod
sentiu-se vulnerável. Completamente transtornado.
—
Acabou. — disse Willy, já contanto os segundos para que os demais agentes
entrassem.
No
entanto, Jarod estava tão furioso, que impulsiva e repentinamente, deixou seu
medo e a razão de lado e foi atacá-lo.
Sua
ação foi tão súbita e inesperada, que Willy não teve tempo de se defender.
Jarod
o empurrou contra a parede e tomou sua arma.
—
Você não tem coragem. — disse Willy, faiscando de medo.
Jarod
parecia sem controle e por um instante, Willy temeu que ele fosse realmente
capaz de atirar.
Os
olhos de Jarod estavam frios, cruéis. Ele olhou mais uma vez para a mulher caída
no chão e para a entrada de tubulação de ar.
Caído
e encostado na parede, Willy esperava o momento certo de reagir. Ele tinha que
fazer algo. Não podia deixar Jarod escapar. Sua vida dependia disso. Então,
enquanto Jarod retirava a grade de proteção da entrada, discretamente, Willy
apanhou uma outra arma que ele tinha escondida no paletó.
Não
havia mais tempo. Jarod percebeu e atirou. Os tiros ecoaram pelas imediações e
Miss Parker ouviu.
Jarod
atirou na perna de Willy, e requisitando apenas um pouco mais de esforço e
destreza, devido ao ferimento no braço, ele entrou no ducto. Jarod escutou o ruído
de alguém vindo em seu encalço. O medo de ser apanhado o empurrava cada vez
mais para frente. O caminho frio e escuro provocava arrepios..
O
labirinto de túneis o deixou confuso, o som de seus perseguidores vindo em sua
direção o deixou em pânico. Jarod não conseguia pensar direito. A pressão
era muito grande.
Ele
tinha que sair dali.
Encostado
na parede, respirou fundo tentando recuperar o fôlego e se acalmar.
Lembrou-se
de uma das simulações em que estava numa situação semelhante...
Ele
era um agente duplo de uma agencia de investigação muito conhecida e tinha que
fugir com documentos secretos do governo. Tudo estava dando certo até que um
dos agentes descobre as suas intenções e avisa a corporação. Não havia
maneira de escapar. Todos estavam em seu encalço. Mas aqueles documentos eram
de interesse vital para outro país. Salvaria milhares de vida e evitaria um
guerra.
Por
questões de segundos, flashes em sua mente, fez sentir todo o pânico e aflição
do momento. Contudo, devido ao medo da possibilidade de falhar, ele acabou se
entregando as autoridades. De certo que, tempos depois, Jarod descobriu que na
verdade a simulação não tinha nenhuma relação com o que lhe contaram. Ele
era apenas um espião roubando segredos industrias.
Contudo,
aquelas lembranças o fizeram perceber o quanto perturbado estava. Ele não
podia se entregar.
—
Sempre há alternativas, Jarod. — disse Sydney na simulação.
—
Jarod! É melhor você desistir! — gritou Miss Parker.
A
moça bem que prontificou-se em segui-lo, mas o bom senso a fez prosseguir
acompanhando a tubulação de ar. Ela não desconfiava o quanto perto estava. Um
tiro para cima e Jarod era baleado. Mas, ela não o fez. Não tinha certeza.
Aquelas
palavras fizeram Jarod voltar a realidade. Ele mentalizou rapidamente todo o
sistema de ventilação. E capaz de observar o mapa em sua mente, Jarod
prosseguiu fugindo. Lembrou-se da saída um pouco mais à frente, retirou a
grade de proteção e pulou, caindo numa sala perto de um dos corredores.
A
agitação por sua causa era óbvia. Os agentes do Centro pareciam dispostos a
encontrá-lo.
Jarod
encostou-se na parede, protegendo-se do angulo de visão dos demais. Apenas
observando, o rapaz sentiu-se mais uma vez encurralado.
Aproveitando
o momento exato, ele correu para o outro lado. Ele tinha que avançar.
—
Jarod...!? — disse Broots, hesitante, olhando de um lado para o outro obtendo
a certeza de que não estava sendo observado.
Jarod
surpreendeu-se. Ironicamente, Broots o havia visto.
Por
alguns instantes, Jarod permaneceu estático, parado. Esperando que Broots se
decidisse se iria ajudá-lo ou delatá-lo.
Broots
engoliu a seco. Nitidamente nervoso, ele achou melhor ignorar e ir pelo outro
lado.
Jarod
entendeu e sorriu satisfeito. Broots não diria que tinha lhe visto. Será?
Rapidamente,
Jarod prosseguiu seu caminho. Dali por diante, não haveria muitos problemas...
Em
questões de segundos, Miss Parker, Sydney e Raines aparecem.
—
Broots! — gritou ela.
Broots
parecia meio assustado. Sydney percebeu. Talvez, Raines também.
—
O que está acontecendo, Miss Parker? — perguntou Broots. — Por que tanta
agitação? Parece até que alguém fugiu!
—
Jarod está tentando escapar, Broots. — respondeu.
—
Ele estava vindo nessa direção. Você deve ter visto. — comentou Raines, sério,
ameaçador.
Broots
olhou para Sydney como se estivesse pedindo um conselho.
Miss
Parker parecia irritada. Ela o empurrou contra a parede e insistiu:
—
Broots, você o viu?
Sydney
estava preocupado. Ele sabia que Broots não agüentava tanta pressão.
—
Sim. — respondeu.
—
Onde? — perguntou Miss Parker.
—
Ele foi por ali... — disse Broots.
Broots
não gostava de se meter nos assuntos do Centro, mas Jarod havia lhe ajudado no
caso da guarda de sua filha Deby. Ele tinha uma dívida impagável com Jarod.
Diante disso, ele mostrou o caminho errado.
Minutos
depois, Jarod encontra a roupa e os sapatos deixados um pouco mais à frente. A
embalagem vazia de chocolate, era o aviso de Ângelo.
Jarod
começava a respirar mais aliviado. Estava apenas a um passo da liberdade.
E
quando conseguiu finalmente sair, os raios de sol em seus olhos, fizeram-lhe
sentir-se como um pássaro que se liberta da gaiola. Ele olhou para trás e
observou o edifício do Centro, torcendo para que fosse a última vez.
No
entanto, ele não podia descansar ainda. Estava muito perto do perigo e não
demoraria muito para que percebessem que ele já havia saído.
Jarod
estava certo...
Ele
percebeu dois carros negros vindo em sua direção.
O
Centro era perto da praia, Jarod sabia que existia uma rodovia ali por perto.
Então, ele embrenhou-se numa corrida incessante em busca da estrada.
Os
carros prosseguiam em sua direção rapidamente.
Jarod
não tinha muito tempo.
Sorte...
Jarod
sabia que a sorte não era algo muito confiável e tão pouco metódico, era
apenas um acaso do destino. Mas ele precisava dela agora.
A
rodovia estava próxima, os carros negros também.
O
medo de ser apanhado novamente impedia que Jarod corresse mais depressa. E na
sua avidez, escorregou, levantou-se, e escorregou novamente, parando por um
momento logo em seguida para se acalmar. Não adiantaria se deixasse o pânico
tomar conta. Jarod tinha que ser preciso em suas ações, sem erros.
O
tom alaranjado no horizonte demonstrava que ainda era cedo.
—
O que eu não daria para morar por aqui... — disse o policial, com a mão no
volante. — Já pensou? Acordar olhando para o mar...
—
Viatura 065, responda. — disse a voz de mulher no rádio da polícia.
—
Não consigo ouvir. O rádio está com interferência! — replicou o policial,
ao atender e soprar divertido, simulando problemas na comunicação.
—
Pare com isso, Bob. — comentou o outro que dirigia. — Pode ser algo
importante.
Bob
sorriu e atendeu novamente:
—
Viatura 065 na escuta, câmbio.
—
Recebemos um chamado. Temos um assalto em andamento na alameda norte. Policial
requisitando apoio.
—
Estamos à caminho. — câmbio e desligo.
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